O papel exacto do transplante de células estaminais hematopoiéticas no tratamento de cada doença é complexo e depende de factores como a gravidade e o subtipo da doença, o estado de remissão da doença, a idade do paciente e a disponibilidade de dadores.

Quando um paciente necessita de um transplante de células estaminais hematopoiéticas, tem de previamente ser sujeito a uma irradiação corporal total para dele se eliminarem completamente o sistema hematopoiético e o sistema imunológico. Só depois são transfundidas para o sangue do paciente as células estaminais hematopoiéticas doadas, as quais de seguida saem do sangue para repovoar a medula óssea do paciente e assim darem origem de novo a um sistema hematopoiético e imunológico saudável.

Os transplantes de células estaminais hematopoiéticas têm elevados riscos de morbilidade e mortalidade. Uma das principais causas é a própria irradiação total do paciente. Ao ficar sem defesas, o paciente tem poucas horas para receber o transplante, o qual rigorosamente não pode estar contaminado. A segunda principal causa são as diferenças de histocompatibilidade HLA (Human Leukocyte Antigens) entre dador e receptor (paciente). Estas diferenças podem manifestar-se como doença enxerto contra hospedeiro (GVHD) e falha do enxerto.

As HLA são glicoproteínas que se encontram à superfície de todas as células do nosso organismo, mas apenas três grupos HLA são importantes para a compatibilidade nos transplantes, HLA-A, HLA-B e HLA-DR. Cada indivíduo contém dois antigénios de cada um destes grupos, pelo que deve ser considerado um total de seis antigénios para caracterizar o perfil de histocompatibilidade de um indivíduo.

Quando há necessidade de transplantação de células estaminais hematopoiéticas, tenta-se em primeiro lugar recorrer à medula óssea de um dador vivo. As células estaminais hematopoiéticas da medula óssea são obtidas por biopsia directa do osso ilíaco ou por mobilização das células estaminais hematopoiéticas da medula óssea para o sangue periférico seguido de extracção das mesmas por punção venosa. A colheita das células estaminais hematopoiéticas da medula óssea ou do sangue periférico mobilizado são procedimentos com riscos de morbilidade. Um dos grandes problemas relativo ao transplante de medula óssea é a ausência de um dador compatível, estimando-se em 0,01% a probabilidade de se encontrar um dador não relacionado (que não seja um familiar directo, como um irmão). Infelizmente, só em 20% dos casos é possível obter um dador de medula óssea compatível.

O dador pode ser um gémeo idêntico (transplante singénico: entre gémeos geneticamente iguais), um familiar ou um voluntário benévolo não aparentado (transplante alogénico: entre pessoas diferentes), ou, em situações muito raras e particulares, o próprio paciente (transplante autólogo). No caso dos transplantes singénicos e dos autotransplantes, o sistema HLA do dador é igual ao receptor (paciente). No caso dos transplantes alogénicos, o dador de medula óssea tem de possuir um perfil idêntico de 5 em 6 de histocompatibilidade HLA com o receptor.

Uma compatibilidade completa entre dador e receptor significa uma correspondência 6/6 antigénios HLA. Esta só é conseguida no caso dos transplantes autólogos e dos transplantes singénicos. Nos transplantes alogénicos de medula óssea é necessário um mínimo de correspondência de 5/6 antigénios HLA. Pelo contrário, nos transplantes de células estaminais do SCU são aceitáveis combinações de 4/6 antigénios HLA ou mesmo de apenas 3/6 antigénios HLA, o que é muito menos exigente quando comparado com as combinações requeridas no caso de transplante de células estaminais provenientes da medula óssea (necessidade de uma correspondência de 5/6 ou 6/6 antigénios HLA). Por estes motivos, o SCU permite que a doação de células estaminais hematopoiéticas possa ser aplicada a um grupo mais alargado de pacientes.

Antes do SCU ser usado como alternativa à medula óssea, as crianças e os adultos não tinham outras alternativas senão prosseguirem com a quimioterapia ou serem deixados morrer.

Não havendo um dador de medula óssea compatível, a Europa iniciou o recurso alternativo ao SCU. Este trabalho pioneiro teve tanto sucesso (85% de cura em mais de 6000 transplantes), que hoje em dia se considera preferível utilizar o SCU em vez da medula óssea, quer na União Europeia (EU Ethics on Cord Blood Bank), quer nos USA (Establishing a National Hematopoietic Stem Cell Bank Program, National Academy of Sciences, USA, 2005: http://www.nap.edu/books/0309095867/html). Ou seja, em 80% dos casos, para se salvar a vida de um filho é necessário recorrer ao SCU.

As células estaminais hematopoiéticas do SCU, têm vantagens em relação às da medula óssea dos adultos. São mais jovens, mais resistentes, têm maior capacidade de multiplicação (10 vezes superior às da medula óssea) e de regeneração, uma menor exigência em termos de níveis de compatibilidade HLA entre dador e receptor (basta uma correspondência de 3 em 6 antigénios HLA), bem como uma menor incidência de rejeição do transplante, quando usadas no repovoamento de medula óssea de doentes após quimioterapia e/ou radioterapia.

Actualmente, a maioria dos transplantes com células estaminais hematopoiéticas em crianças é já efectuado com SCU e não com medula óssea. No caso dos adultos, nos próximos 5 anos também a maioria dos transplantes com células estaminais hematopoiéticas será maioritariamente com SCU e não com medula óssea.

O SCU usado nos transplantes pode ser proveniente de um banco público internacional ou de um banco privado. Os bancos privados de SCU, desde que observem regras muito rigorosas de colheita, transporte, processamento, isolamento e criopreservação, são mais abrangentes, pois permitem transplantes singénicos (de um irmão gémeo), transplantes alogénicos (entre familiares, como por exemplo entre irmãos) e transplantes autólogos (SCU do próprio bebé). No caso da utilização de células estaminais do SCU para uso autólogo (para o próprio bebé), a questão da compatibilidade HLA nem se coloca, visto ser total. O próprio banco público de SCU dos USA baseia-se numa rede de bancos privados de SCU, cujas licenças são renovadas anualmente após inspecção segundo as normas da NETCORD/FACT.

Ao criopreservar o SCU do seu bebé está, deste modo, a potenciar a possibilidade da sua eventual utilização clínica por um familiar próximo (irmãos, pais, avós, entre outros). Entre familiares, o SCU criopreservado tem uma probabilidade de 25% de ser histocompatível e de ser utilizado no transplante de um irmão ou outro familiar.

As células estaminais hematopoiéticas do SCU são um recurso clínico de enorme valor para o tratamento de doenças hematológicas, malignas (como por exemplo as leucemias e os linfomas) e não malignas (como por exemplo as anemias, as imunodeficiências e as doenças metabólicas).

As células estaminais do SCU são tão poderosas que têm vindo também a ser aplicadas com sucesso na regeneração de tecidos (Medicina Regenerativa), como no enfarte do miocárdio e nas fracturas ósseas. Futuramente, a aplicabilidade das células estaminais do SCU poderá estender-se a outro tipo de doenças, como as doenças neurodegenerativas e a diabetes.

Actualmente, é alvo de grande interesse de investigação científica a multiplicação in vitro das células estaminais hematopoiéticas do SCU em laboratórios especialmente qualificados para o efeito (laboratórios de nível IV como os da CRIOVIDA), no sentido de se aumentar o seu número (expansão celular ex vivo).

No laboratório CRIOVIDA, e de acordo com as normas da NETCORD/FACT, as células estaminais do SCU são criopreservadas num saco especialmente concebido, em que um pequeno volume extra de SCU está isolado do SCU principal para transplante. O SCU extra serve para, a pedido das Famílias e dos seus médicos, ser realizada a expansão in vitro das células estaminais. Esta expansão tanto pode ser usada no transplante do SCU principal por haver necessidade de um maior número de células, como pode ser utilizada para outros fins sem se utilizar o SCU principal, que se mantém reservado para transplante. Neste último caso, a expansão do SCU extra seria para se poder utilizar a potencialidade das células estaminais do SCU na regeneração de tecidos, ou seja, em outras doenças do próprio ou de seus familiares.




Em vários casos o número de células estaminais presentes no SCU (células CD34+) recolhido na altura do parto não é suficiente para a realização de um transplante em crianças com mais de 40 kg. Para estes casos difíceis existem as seguintes estratégias:
1. Expansão ex vivo de células do SCU
2. Transplante sequencial de duas unidades de SCU
3. Transplante combinado de SCU e de MO
4. Cotransplante com células estaminais mesenquimatosas isoladas do SCU

Pediatrics 2007
Current Clinical Applications of Adult Stem Cells